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Segunda-Feira, 26 de Junho de 2017
Rádio Perfil FM


Paulo Félix

Paulo Félix

Turismo, cultura, fatos, versos e canções


23/06/2013

A Madrugada

Não contasse o vento no tempo de um poeta que a madrugada velha que inspira, insiste em calar seu tema ante a terna precocidade do amanhecer; não persistisse o tempo que o vento esmorecido e frágil, deixasse resvalar-se por entre as mãos do poeta, minúsculos restos de palavras que se adéquam, se moldam em versifico e métrica, para dizerem dela antes de partir; mas, se não conhecesse o vento no tempo que nunca espera, mas, que sabe tanto das coisas, o que diria o poeta que sabe da língua que diz e que traduz?

É que às vezes o poeta é louco, se fecha no tempo e mesmo de pés no chão se fantasia no espaço, calado, de cabeça cheia e a mil, mil e uma noites que riem dispersas, manhãs fantásticas que chegam, porém, distantes e não dizem nada. E a procura de rimas o poeta vai aonde não encontra nada.

Mas, o poeta no seu jeito louco já nem se importa se perambula por céus distantes ou de brigadeiros, se vagante pelas calçadas, feito sombras inusitadas que silenciosas por alamedas ou passarelas seguem em meio à madrugada, madrugada sua, território pleno e fértil, pois é na madrugada suave ou quente que um poeta louco nunca se poupa de corações atônitos, amores perfeitos, porém, de futuros duvidosos. Amores de penumbras e de desejos vazios, anseios vadios que clamam a própria sorte, imaginação, inspiração, em busca de palavras mágicas, melódicas, que saciam e que contemplam pra completar o verso envolto a solidão que o cerca sem limites, e faz voar nas asas da intuição, razão que o leva, livre como um pássaro, veloz como a força do pensamente, para ouvir de perto a murmurar o outro poeta louco que diz: "...como sempre na rua e em mim... quando, de repente, por trás de uma árvore, ele aparece, em rara combinação de penúltimo vagabundo e de primeiro astronauta em viagem a Vênus... - Astor Piazzolla".

É que a madrugada velha nunca se cansa e nem se cala, esbanjada em matizes, iluminada pelas diversidades, reflexos das cores, na cor, pura essência da arte que encena pra realimentar o poeta que desperta na noite, para juntar os pedaços que se unem pra de tudo, na mais flagrante verdade, verdade dita de perto porque persiste para não se apagar nunca no intimo inquieto e irrequieto de um poeta que ri e que chora, mas, que também anseia porque veio sob o sinal da lua alta em meio à madrugada velha, como se estivesse certo para dizer e fazer somente do seu jeito.

Há poeta, quanta viagem seria necessária para se cumprir um tempo e descobrir uma essência? Quanta loucura seria indispensável para concretizar o verso que diz da chama inconteste? Quantos instantes bastariam para identificar o poeta pela obra que produz? E quem diria fosse necessário tudo isso para que um poeta pudesse romper o silêncio e cruzar o espaço se valendo de asas imaginárias rumo a cantos distantes; quem diria mesmo pudesse um poeta ir às raias de suas próprias loucuras para criar e dar o tom ao verso que fantasia uma história; por fim, quem diria fosse pelas velhas madrugadas que um poeta triste, embora, irrequieto e franco encontrasse o canto que conecta palavras: o verso que diz sem medos da razão e do sentimento de um poeta que entendeu tudo pelas madrugadas.

 

                                                                                                                Paulo Roberto Félix





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